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Rota Bioceânica (por Tácito Loureiro)

Veias Abertas do Continente Não será asfalto que nos unirá, nem portos rasgando o ventre do Pacífico para engordar navios sem bandeira. Esta estrada que esquadrinham no mapa — fria linha entre desertos e florestas — será veia aberta ou artéria viva? Pergunto aos que cavam a terra com unhas, aos que carregam o sal […]

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Redação
25/06/2025 às 08h23
Rota Bioceânica (por Tácito Loureiro)

Veias Abertas do Continente

Não será asfalto que nos unirá,

nem portos rasgando o ventre do Pacífico

para engordar navios sem bandeira.

Esta estrada que esquadrinham no mapa

— fria linha entre desertos e florestas —

será veia aberta ou artéria viva?

Pergunto aos que cavam a terra com unhas,

aos que carregam o sal do Chaco na testa,

aos pescadores cujas redes secam no cais vazio:

Para quem flui este rio de cimento?

O oceano que buscam não é de água salgada,

mas o mar sem fim da acumulação.

Oh, Rota Bioceânica, fantasma de progresso!

Teu nome é grito engasgado na garganta

do camponês expulso do seu chão virgem,

da comunidade indígena que vê passar

o rastro de ferro sobre raízes sagradas.

“Corredor do desenvolvimento”, dizem…

Enquanto o lucro escorre por drenagens ocultas

rumo a paraísos fiscais.

Mas há outro mapa sendo traçado

— não por satélites nem corporações —:

É a rota humana que tece teias de solidariedade,

o caminho de mãos que cruzam fronteiras

carregando sementes, histórias, fogo.

Esta sim, bioceânica verdadeira:

Sangue, suor e sonho entrelaçado

de Buenos Aires a Antofagasta,

de Assunção ao coração da Amazônia que resiste.

Não levaremos nossa riqueza em contêineres

— minério, soja, lágrimas compactadas —.

Levaremos a sabedoria organizada das assembleias,

o conhecimento das águas que não se vendem,

o canto que transforma estradas em praças.

Que a nova geografia nasça da terra rachada:

Onde hoje passam máquinas vorazes,

passarão amanhã os povos em caminhada,

desviando cimento para construir escolas,

fundindo trilhos em enxadas,

transformando postos de pedágio

em abrigos para os filhos do vento.

O verdadeiro oceano a cruzar

é o abismo entre os que têm e os que constroem.

Quando a última ponte for erguida

sobre os escombros do capital,

veremos: não unirá oceanos,

mas margens há muito separadas

— irmão a irmão, trabalhador a trabalhador —,

e cada quilômetro terá o nome

de quem o suou, o sonhou, o ergueu.

Navegaremos, então,

em barcos de terra fértil,

rumo a um horizonte

onde o sol nasce

de todos os lados.

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