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O Silêncio da Onça Enjaulada e o Grito da Soja transgênica

O Silêncio da Onça Enjaulada e o Grito da Soja transgênica Por: Onildo Lopes (inspirado em Moacir Scliar) O Pantanal, outrora sinfonia de águas e vida, ecoa agora um silêncio lúgubre. Não é o silêncio da contemplação, mas o da ausência, o do espaço usurpado. Jorge Avalo, homem da lida pantaneira, tombou sob as garras […]

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Redação
26/04/2025 às 10h21
O Silêncio da Onça Enjaulada e o Grito da Soja transgênica

O Silêncio da Onça Enjaulada e o Grito da Soja transgênica

Por: Onildo Lopes (inspirado em Moacir Scliar)

O Pantanal, outrora sinfonia de

águas e vida, ecoa agora um silêncio lúgubre. Não é o silêncio da contemplação,

mas o da ausência, o do espaço usurpado. Jorge Avalo, homem da lida pantaneira,

tombou sob as garras da fera. A onça, outrora espírito livre a vagar pelas

várzeas alagadas, jaz agora prisioneira, um espectro de sua antiga majestade.

Duas vidas ceifadas, unidas por um fio invisível de tragédia anunciada.

Seus olhos, antes faróis dourados

a perscrutar a mata, fitam agora as grades com uma opacidade entristecida.

Imagino o eco fantasmagórico de seus rugidos noturnos a se chocar contra o

concreto da jaula — saudade lancinante da vastidão onde cada passo era uma

declaração de liberdade. Aquele corpo musculoso, talhado para a caça e para a

dança silenciosa entre as árvores, sente agora o peso inerte do confinamento.

Mas a culpa, meus amigos, não

reside unicamente nas garras da onça, ser que age por instinto em um mundo

violentamente alterado. A culpa espreita nos vastos campos verdejantes que

avançam como onda implacável sobre a planície alagável. A culpa veste a cor da

soja que se estende até o horizonte, sufocando a diversidade, afugentando

presas naturais, transformando o santuário da vida em deserto verde de

monocultura.

Onde antes havia o vaivém das

capivaras, o mergulho ágil dos jacarés, o voo multicolorido das araras, hoje se

ergue o monótono exército da Glycine max, sedenta por espaço, insaciável por

nutrientes, indiferente ao equilíbrio que sustenta a teia da vida pantaneira.

E, atrás da soja, a sombra das pastagens: engolem os últimos refúgios,

fragmentam corredores ecológicos, empurram a fauna nativa para um confronto

desesperado com o humano.

Jorge Avalo, talvez guardião

silencioso daquele mundo em extinção, tornou-se vítima fatal desse choque de

realidades. A onça, acuada pela escassez, desorientada pela perda de seu

território, agiu por instinto de sobrevivência desesperado, ceifando uma vida

humana em encontro trágico e inevitável.

E agora, qual o destino? A onça

pagará com prisão perpétua por um crime urdido pela ganância humana. Será

exibida como troféu de nossa incapacidade de coexistir, lembrete sombrio das

consequências de nossa voracidade.

O Pantanal chora em silêncio.

Suas águas, outrora cristalinas, carregam agora a mácula da destruição. O grito

da onça enjaulada mistura-se ao sussurro melancólico das árvores derrubadas, ao

lamento dos rios assoreados. E, no cenário de devastação, a soja verde avança —

indiferente à tragédia que semeia, monumento à busca cega por lucro a qualquer custo.

Que a morte de Jorge Avalo e a

prisão da onça sirvam de alerta. Que seus silêncios nos ensinem a ouvir o grito

sufocado do Pantanal antes que ele se torne pálida lembrança em meio aos vastos

campos de monocultura. A liberdade da onça e a vida de Jorge foram ceifadas

pela mesma foice: a de nossa insensibilidade diante da fragilidade da natureza.

E a conta, meus amigos, essa conta será cobrada — mais cedo ou mais tarde — de

todos nós.

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