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O Rio Brilhante que Não Cala: A Semente da Floresta que Cresce em Dourados (por Tácito Loureiro)

Dourados dorme. Seus campos, banhados pelo sol que doura o milho, carregam também o peso de histórias repetidas: “Trabalhe em silêncio, aceite o que vem, não questione”. Mas nas margens do Rio Brilhante, onde as lavadeiras cantam desafinadas, algo racha o solo. Uma semente — trazida pelo vento de um avô Guarani que plantava mandioca […]

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Redação
29/04/2025 às 09h59
O Rio Brilhante que Não Cala: A Semente da Floresta que Cresce em Dourados (por Tácito Loureiro)

Dourados dorme. Seus campos, banhados pelo sol que doura o milho, carregam também o peso de histórias repetidas: “Trabalhe em silêncio, aceite o que vem, não questione”. Mas nas margens do Rio Brilhante, onde as lavadeiras cantam desafinadas, algo racha o solo. Uma semente — trazida pelo vento de um avô Guarani que plantava mandioca e dúvidas — cai na terra. Ninguém vê, mas ela sussurra: “E se ‘sempre foi assim’ for só medo de mudar?”

Na escola municipal Professora Eva Luz, a professora Marília — neta de colonos que perderam a terra para o gado — mostra aos alunos uma foto: Dourados nos anos 60, com matas onde hoje há soja. “Quem decide o que vira deserto e o que vira ouro?”, ela pergunta. Uma criança, de uniforme remendado, responde: “O dono da máquina, tia”. A sala ri. Mas o riso é semente.

Enquanto isso, no assentamento Itamarati, Dona Socorro — que virou símbolo ao erguer uma horta comunitária em terra seca — lembra: “Antes de ser ‘sem-terra’, eu era ‘sem voz’. Agora, sei que voz rega planta”.

Seu Osmar, 58 anos, dirige há décadas a BR-163. Um dia, viu um caminhão da prefeitura derrubando casas à beira do rio. “Era gente como eu, Seu Osmar?”, perguntou-lhe um jovem de boné do MST. Ele não respondeu. Mas naquela noite, no boteco da Dona Marta, contou: “O rio tá sujo de sangue invisível”. A frase virou verso na música do rapper indígena Werá, tocada na rádio comunitária.

Não foi um herói que mudou Dourados. Foram gestos teimosos:

– O grafite da Praça Antônio João, onde uma jovem pintou o rosto de Marçal de Souza (líder indígena assassinado) ao lado da frase: “Quem tem memória, rega futuro”.

– A feira dos agricultores familiares, que trocam veneno por adubo orgânico e medo por cooperativismo.

– O sindicato dos professores, que transformou greves em aulas públicas na praça: “Ensinar história é mostrar que o agronegócio nasceu de grilagem”.

Os “donos do poder” riram. Chamaram a floresta de “erva daninha”. Mas subestimaram o rio. Porque a verdadeira esquerda não chega com discursos. Ela chega como cheiro de terra molhada após a seca — lembra que a vida volta. Como mãos que carregam um caixão de despejo e, no caminho, viram protesto. Como a criança que pergunta ao pai: “Por que o patrão tem 10 caminhões e nós só dívida?”

Hoje, o Rio Brilhante não sussurra. Ele canta. Sua voz é feita de:

– Reuniões no CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), onde mães exigem creches 24h.

– Festivais de teatro na periferia, onde o palco é um trator desativado e a peça se chama “Quem Matou o Rio?”.

– Vereadoras como Tereza Ximenes, primeira indígena eleita, que propõe leis para titular terras quilombolas.

Dourados, você já sabe:

– A semente virou raiz.  – A raiz virou árvore. – A árvore virou ponte.

O conservadorismo oferece um mapa velho. A esquerda oferece uma enxada. Qual você usa para plantar?

O rio não pergunta. Ele já corre pro mar. E leva consigo quem ousa navegar.

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