Rádio Web Jave
Artigos

Crônica — Desconto automático, vergonha permanente”

Crônica — Desconto automático, vergonha permanente” Por Moacyr Scliar (se estivesse entre nós) Na fila do banco, dona Judite conta as moedas como quem conta os dias. Aposentada há mais de uma década, desenvolveu uma técnica invejável para sobreviver com precisão cirúrgica: cinco reais para o pão, três para o gás (parcelado em doze vezes, […]

R
Redação
24/04/2025 às 15h10
Crônica —  Desconto automático, vergonha permanente”

Crônica —  Desconto

automático, vergonha permanente”

Por Moacyr Scliar (se estivesse entre nós)

Na fila do banco, dona Judite

conta as moedas como quem conta os dias. Aposentada há mais de uma década,

desenvolveu uma técnica invejável para sobreviver com precisão cirúrgica: cinco

reais para o pão, três para o gás (parcelado em doze vezes, veja bem), e um

restinho para a rifa da igreja, afinal, esperança é item de cesta básica.

Mas, naquele mês, algo estranho

aconteceu. O saldo estava menor. Bem menor. Consultou o extrato e lá estava:

“Desconto Associativo – Entidade XYZ dos Trabalhadores em Geral”. Dona Judite

nunca foi associada nem à turma da caminhada do bairro — imagine a um sindicato

com nome de loteamento de condomínio.

Descobriu então que não estava

só: milhões de Judites, Josués, Raimundos e Efigênias espalhados pelo Brasil

afora também viram seus benefícios emagrecerem como quem entrou numa dieta de

piranhas. R$ 6,3 bilhões — uma cifra tão surreal que deveria vir acompanhada de

trilha sonora dramática e narrador do Fantástico.

O ministro Lewandowski, com seu

semblante sóbrio, anunciou o ressarcimento. Justo. Necessário. Mas, como diria

meu tio Boris, “ressarcir o quê, se o leite já virou coalhada e foi

vendido na feira?”. A justiça tarda, falha, atrasa o ônibus e ainda

esquece o troco.

Imagino a cena no céu da

burocracia: entidades fantasmagóricas reunidas numa assembleia etérea,

discutindo quais aposentados ainda têm algum restinho para ser desviado. O nome

da operação é Sem Desconto — um título involuntariamente sarcástico, como

chamar de “Segredo de Família” uma fofoca no grupo de WhatsApp.

O curioso é que ninguém perguntou

à dona Judite se ela queria ser associada. Ninguém ofereceu bombom, não mandou

brinde, não prometeu nem mesmo um adesivo de geladeira. O desconto chegou

sorrateiro, como visita inoportuna que bebe café, reclama do calor e ainda leva

a última fatia de bolo.

Sim, haverá ressarcimento. Um

dia. Quem sabe. Talvez em parcelas suaves, como quem devolve um pedaço de

dignidade por mês.

Mas a maior devolução ainda está

pendente: o respeito. Esse, infelizmente, não entra em planilha e não rende

juros.

Leia também

Rádio Web Jave · ao vivo
A diferença é Jesus